terça-feira, 11 de setembro de 2012

Etcétera e coisas

08

No meio do caminho tinha uma árvore. Sim, tinha uma árvore no meio do caminho. Cansada e faminta Ella sentou-se à sua sombra. Olhando pro nada se pôs a cismar.
Passara por um Vilarejo onde pessoas se reuniam em Igrejas para ouvirem sobre Deus e fazerem orações... -“Talvez não saibam ler aquele livro”... – pensava. ... – e aquele livro é sobre Deus... E as pessoas recitavam versos pedindo um montão de coisas  – Pai nosso que estais nos céus... Venha a nós... 
Deitou-se à sombra da árvore para olhar melhor o céu. Quem é esse Pai pra quem tanto pedem? Quem é Deus?
Seus pais nunca falavam sobre Deus... Ella sorriu ao lembrar que seus pais nunca falavam sobre nada... Foi mesmo uma surpresa descobrir, tempos depois, que seu pai contribuía com uma entidade de assistência social... E admirava Abraham Lincoln...
Sabia tão pouco de sua mãe... Era calada... Respondia sempre com um sorriso de quem sabia ou não sabia e achava engraçada a pergunta... Ella ficava sem resposta. Tempos depois viveu momentos marcantes com sua mãe... Ouvira sobre Fé... Crer no que não se pode ver... Crer em Força Superior a remover montanhas... Crer em Força Superior utilizando o elemento humano para realizações extraordinárias... A cura,  o remédio Vontade e Fé. 
Fora a vontade de sua mãe com a fé em Deus,  que a teria curado? Muito tempo se passaria até que Ella entendesse a necessidade de sua mãe, de usar véu e segurar um livro para clamar pedido de cura pra sua filha fragilizada...

Então, por pensar que tinha entendido, perguntava-se agora, – quem é Deus?
Esta deve ser mesmo uma pergunta engraçada... Todas as pessoas pra quem perguntou, riram. Até Ella ria com a pergunta! ...

Bem teria feito se aceitasse a resposta do padre... – “não devemos tentar entender os mistérios de Deus”. – dissera ele... – “apenas aceitá-los.” O caso é que Deus, padre, então onipresente, onisciente, todo-poderoso, parece me dizer: Decifra-me! Então, a quem devo ouvir? E o padre riu. Mas respondeu – “dedique-se à sua família! Com o tempo terá sua resposta...” Ella se foi insatisfeita. Como dedicar-se a alguma coisa tão fragmentada cujas ferramentas para juntar os cacos, não possuía? Tampouco sabia quais eram... então Deus não era um mistério a ser decifrado? 1º mistério: quais ferramentas? 2º mistério: onde encontrar? 3º mistério: como utilizar? Três mistérios!

Etcétera e coisas...

Percebeu que perdera-se em lembranças... E que agora, tinha que juntar os próprios cacos... Teria sido devorada? Sentiu-se empoeirada... Levantou-se à procura de um Lago...














quinta-feira, 23 de agosto de 2012

No caminho com pedrinhas

07
E lá vinha Ella caminhando sobre suas pedrinhas de brilhantes... Absorvida que estava naquele ambiente de Luz, pode sentir a energia daquelas pedrinhas tão lindas que compunham o chão daquela pequena alameda,  por onde seguia em direção a um dos seus  espaços preferidos, daquele Jardim paradisíaco que orgulhosamente, ajudou a construir... Podia mesmo conversar com as pedras, e sentiu por elas, naquele momento, um sentimento de amor e gratidão tão forte que seus olhos marejaram... – “posso levar uma dessas pedrinhas como recordação deste momento” – pensou. As pedrinhas responderam – “não leve daqui uma pedrinha sequer, pois não te pertence.”  E lágrimas rolaram em seu rosto. Percebeu no brilho daquelas pedrinhas, alegria e dignidade. Eram, todas elas, um caminho. Um caminho belo e inspirador... tinham o poder de fazer com que, os que por ali passavam, flutuassem ou se integrassem ... Ella não era ela durante seus passos naquele caminho e sim, aquelas pedrinhas... Sorria e chorava ao mesmo tempo de puro êxtase... Jamais, jamais comentaria daquela experiência tão sua... Não que tivesse tomado essa decisão naquele momento, apenas deu-se conta disto muito tempo depois. Ella se abraçaria às lembranças daquele momento ímpar... Iria para aquele instante mágico, muitas, muitas vezes sorrindo, interiormente... Sabia que se porventura tentasse explicar, ninguém jamais compreenderia... ou acreditaria... Apesar do turbilhão de emoções durante aquele breve caminhar em pedrinhas de brilhantes, Ella só parou ao findar o caminho. Passou por ele o mais devagar que pode, incendiada por aquela energia maravilhosa... Olhou pra trás e sentiu vontade de retornar... Queria sentir mais, mais e mais...
 Não que houvesse compreendido, naquele momento, sobre pedras no caminho ou caminho de pedras...Apenas percebeu a importância delas. E que ali, semeadas pelo homem, a então agora definitivamente suas, pedrinhas de brilhante, desempenhavam magnificamente a representação do belo. Ficou ali parada, olhando a trilha percorrida, extasiada... Havia muitas trilhas naquele Jardim, mas, decidiu que retornaria por aquela. Ella era toda, aquelas pedrinhas. Aquelas pedrinhas, eram Ella. Não que não houvesse se dado conta do frescor que as sombras daquelas belas, imponentes e cheirosas árvores proporcionavam durante o percurso. Mas as pedrinhas chamaram a atenção de Ella... Tão lindas eram.
Um verdadeiro banquete de emoções indescritíveis! Ella sentia-se profunda, profunda e irremediavelmente agradecida.
 Prosseguiu.
Ella chegou no seu cantinho das azaléas... Ah! As Azaléas! Vermelhas, a maioria delas, lindas, aveludadas...
Outras, cor-de-rosa, cada uma mais linda que a outra!
O banco e mesa de concreto, o piso de mosaico, aquele silêncio... Quase ninguém passava por ali... Outro cantinho só seu... ali não plantaram árvores... Só Azaléas. O sol batia direto naquele recanto, a brisa suavizava o calor... As flores suavizavam a rigidez do concreto... Uma ou outra florzinha ressequida lembrava a necessidade da intervenção do Homem... Caso a chuva não fosse suficiente... 
Ali, Ella reencontrou seu pai... Ali, Ella degustaria, em companhia de sua amada amiga Sueli, um suculento yakisoba ... Ali, no cantinho dos seus antepassados... Era um bom lugar... Haveria algo mais? Iria ao Templo. 
 Retornou ao seu caminho de pedrinhas brilhantes. Porem agora, elas estavam silenciosas... Pareciam dormir... Daquela emoção primeira apenas a certeza da lembrança do que sentiu... Ella parou um instante no meio do caminho... Sequer trouxera uma máquina fotográfica...Aquele caminho só seria para sempre,  na memória dela...Inspirou profundamente,  olhou em volta, cada detalhe, fechou os olhos, fotografou mentalmente, expirando devagarinho... Não reencontraria jamais, aquela paisagem no plano físico... Olhou as pedrinhas... Indiferentes, salpicadas de folhinhas secas... Ella quis ficar triste mas espantou a tristeza.
O que sentiu foi marcante... Mesmo que nunca mais sentisse, a marca daquele momento mágico estaria nela para sempre. Um sinal de conforto.
 Alguns homens desciam pelo caminho conversando... pareciam desapercebidos daquele local sagrado... Ella subiu em direção ao Templo. Necessitava algumas respostas...